quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O Convite

Hoje convidou o marido para jantar.
Após tanto tempo, quase um ano, pensou que uma saída a dois iria ser perfeito.
Um vestidinho preto, simples mas sexy o suficiente para um segundo ou terceiro olhar, sapato de salto alto e até - e porque não - um cinto de ligas a condizer com a ocasião.
Pensou num local sossegado, não necessariamente à luz das velas mas com musica ambiente, uma boa refeição e um bom vinho, ou então um restaurante mexicano onde jantariam ao som dos "Mariachis" embalados por uma ou três "Margueritas".
Boa conversa, um pé descalço a afagar lânguidamente a perna do marido como uma sugestão de sobremesa.
Com um sorriso, provocado pelo cenário imaginado, preparava-se para tomar um banho quando ouve:
- Importas-te de em vez de irmos hoje jantar  fossemos almoçar amanhã?
- Importo - responde - não gosto de "almoços". Mas se não queres ir...
- Não é não querer ir mas gostava de ver o Jogo da Selecção.
"Tudo bem,  Ok, não sabes o que perdes mas tudo bem." - pensou, afinal sempre é a Selecção, a presença no Mundial em jogo, Cristiano Ronaldo & Cia,
Desiludida foi para a cozinha preparar o jantar.
Picanha grelhada com camarões à "la guilho" e batatinhas "noisettes". Já que não ia jantar fora faria a si própria um pequeno mimo.
Mesa posta, preparados para jantar e começa o Jogo.
Ia-lhe caindo o queixo, os braços, a cabeça, tudo.
Era a Selecção sim, mas os putos. Os sub-21 ou 19 ou o raio que os parta.
Incrédula pergunta: - O "verdadeiro" Jogo é só amanhã?
- Bom, este também é "verdadeiro" mas  entendo o que queres dizer, sim é só amanhã. - Responde o marido com a maior naturalidade.
Ela ficou imóvel, colada à cadeira por uma cola invisível. Cerrou nervosamente os punhos sentindo um rochedo no fundo do estômago. Como é possível ficar em casa, mais uma vez, a olhar para a "caixinha", por uns imberbes estarem a jogar? Não acreditava no que estava a acontecer e foi acometida por uma sensação de raiva, cada vez mais poderosa, como que querendo sair de rajada por cada poro do seu corpo.
A sua mente rodopiava como uma carrossel .
"Todos os dias o mesmo. Todos os dias !!! Se não é o futebol é o concurso, se não é o concurso são as noticias, se não são as noticias é o computador. Bom dia e boa noite perfazem noventa por cento dos nossos diálogos. Todos os dias!!! O que faço aqui?A sério, o que faço aqui??!!"
Dá voltas e voltas à cabeça numa vã tentativa de perceber o que se passa, o que mudou.
Grita, barafusta, chama-lhe todos os nomes que se lembra. Em pensamento, claro!
Se fosse no inicio qual jogo, qual televisão.Cada momento era um diamante em bruto à espera de ser lapidado. Cada momento era uma descoberta, um mistério a ser desvendado numa ânsia total.
Cada gesto, cada sorriso, cada olhar, tudo era mágico.
As sua histórias, como ela as bebia, cada palavra que ele dizia, como tudo era estimulante!!!
As noites que, mesmo à distância, invariavelmente acabavam com uma dor enorme nos maxilares de tanto rir, onde se sentia mais próxima dele do que alguma vez estará. Tudo isso está envolto numa camada espessa de nevoeiro, opaco, frio, e distante.
Isso era dantes.
Agora é todos os dias o mesmo feijão com arroz.
"Mas será que tem de ser assim?Será que é obrigatório?" - Não crê. Ou melhor, tem esperança que não o seja!!!
Pensa em tudo o que viveram, o que sentiram, e apetece-lhe gritar, apetece-lhe bater!
Mas depois seria acusada de violência doméstica!
Claro que a violência da recusa do seu convite para jantar nunca será contabilizada, os longos dias e noites em silêncio, como se estivesse sozinha,  nunca serão levados em consideração como violência! Violência ao seu amor.
Não há mesmo maior solidão do que a vivida a dois.
Findo o Jogo vê na TV uma série onde os encontros e desencontros, os encantos e desencantos fazem a estrutura da mesma, são o centro da acção e pensa que voltou a viver tudo o que jurou nunca mais viver.
Tudo o que deitou para o lixo, o conteúdo de vinte anos de vida está de novo a acontecer.
Drama, drama e mais drama!
"Porra! Nem a TV ajuda! Não há  casamento que resista a tanta monotonia."
E foi com este pensamento que se foi deitar com a esperança de que pelo menos num sonho a sua vida fosse diferente.

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