Sei que estou.
Sinto o chão debaixo dos pés, o vento na cara, sinto os mesmos odores, os sons, a paisagem tão familiar, os mesmo lugares, sim, sei que estou mas é como se eu fosse um fantasma, a vaguear por tudo aquilo que já foi.
A felicidade outrora sentida, perante a descoberta, a novidade é certo, mas principalmente pela cumplicidade na partilha das vivências.
Sim, isso passou.
Sei que estou.
Mas é como se fosse uma sombra, quase imperceptível, uma brisa que sussurra suavemente e que quase não se dá por ela.
Sei que estou.
Mas não sei se mais alguém sabe….
Perco-me em pensamentos, deixo a mente vaguear enquanto o olhar percorre as mesmas casas, as mesmas ruas onde as emoções foram tão fortes. Instintivamente procuro o abraço, o toque, o olhar.
Mas não estão lá.
Ou melhor, até estão, só que bem mais à frente e perdidos em conversas e atenções.
Limito-me a caminhar. Mecânicamente. Calada, sozinha.
Sozinha.
Nada descreve melhor o que sinto do que esta palavra: Sozinha.
Não há solidão maior do que a vivida a dois, a três ou mesmo com uma multidão….. Sozinha!!!!!!!!!!!!!.
O coração vai-se apertando, os olhos começam a arder, a cabeça a latejar.
Continuo a percorrer as ruas, olho para as pessoas, para as montras, numa vã tentativa de me alhear do que sinto.
Tento-me sentir útil, procurando os caminhos, tento até brincar com a situação, continuo.
Cabeça erguida, sem demonstrar o que sinto.
Represento.
Como se numa peça de teatro estivesse.
Rio com piadas e histórias contadas, não a mim, claro (não passo da tal brisa), tento que me olhem, que me ouçam até, mas de cada vez que o faço alguém se intromete, supostamente com algo interessante para dizer e de novo me remeto à condição de "brisa".
Deixo passar.
O coração cada vez mais apertado. A sensação de estar "a mais" cada vez mais forte.
O desejo que tudo acabe rápido.
Noite, silêncio, escuridão, solidão.
A falta de um abraço, de um carinho, de um beijo, de uma atenção, de uma conversa, de algo que me faça perceber que realmente estou aqui.
E que sou importante.
Adormeço.
Agitação, num sono atormentado por sonhos difusos a raiar o pesadelo onde corro, corro, corro, sem nunca chegar a lado nenhum ou sequer sem saber de que corro.
Mais um dia.
Volto a um lugar outrora mágico, mas que agora não passa de um amontoado de pedras, silenciosas, escuras, melancólicas até.
Da floresta cheia de vida, em que a minha imaginação povoou com
Elfos,
Fadas,
Gnomos, onde me senti a
Morgaine a namorar o
Lancelot, nada resta.
São só árvores rodeadas de folhas mortas, mergulhadas na neblina, tristes, lamentando-se ao vento.
Tal como eu.
Frio.
Tenho frio.
Aperto o casaco, quase tapo a cara, mãos nos bolsos, mas não adianta.
O frio vem de dentro. Vem da alma.
E finalmente choro. Não um choro compulsivo, mas um lamento, uma torrente de lágrimas que não posso conter.
Ninguém nota. O que não é difícil visto continuar sozinha.
Alguém se aproxima, olha para mim.
Fica alarmado perante a minha dor. Penso que me vai abordar.
Fuga.
Preciso de fugir.
Limpo as lágrimas à manga do casaco. Acendo um cigarro e finjo que choro do frio.
Acho que acreditou. Desviou o olhar e seguiu em frente.
Sim, posso sempre usar a desculpa do frio.
Mas não é necessário. Ninguém nota.
Na verdade, quem presta atenção a uma brisa, um fantasma?
Alheio-me.
Encolho-me no meu lugar. Escuto as conversas animadas.
Tento novamente participar, mas é como se falasse uma língua estrangeira que ninguém percebe.
Ninguém presta atenção. Talvez a conversa seja realmente interessante e eu esteja mesmo a mais.
Calo-me. Encolho-me ainda mais no meu lugar e fecho os olhos.
Novamente o desejo que tudo acabe rápido.
De repente dão por mim.
De repente uma dúvida assola. Será que estou bem?
Sim, respondo. Está tudo bem.
Excepto o sentir-me completamente a mais, excepto sentir-me completamente sozinha, penso e sinto sem o dizer.
Aliviados dessa dúvida, desse pequeno e momentâneo vislumbre da realidade, seguem caminho completamente absortos nas suas conversas, nas suas brincadeiras, deixando-me novamente para trás e sem mais me prestarem atenção.
Tenho frio!!!!!!!!!!
Mas será que ninguém vê????????????
Será que ninguém sente????????????
Serei assim tão fantasma que embora peça, rogue, ninguém dá por isso?
O dia acaba.
Um jantar espectacular no meio de tanta animação, claro, rodada a cervejas, eu sei, e no meio de tantas pessoas felizes, alegres, contentes, foi onde mais uma vez fiquei sozinha.
E se fiquei….
Ao ponto de me perguntarem se o "parzinho maravilha" tinha desistido de mim e tinha dado azo aos seus desejos primordiais. Claro que quando disse que o parzinho maravilha era comigo, questionaram se tinha bebido cervejas a mais (logo eu que não gosto de cerveja…) , se estava lúcida o suficiente para perceber que ninguém que ame alguém deixa esse alguém sozinha, principalmente onde estou, deixando-me à espera de de nada……………… Pois……… mas é o que acontece…………!
Aqui estou, olhando as pessoas que se atropelam, mas felizes (olho para um casal de 60 anos……) e eu estou sozinha na mesa, à espera nem sei de quê……!
Algo impensável há tão pouco tempo………..!
Quem antes SEMPRE esteve do meu lado, agora está distante de mim.
E continuo…………… E represento…….. E tenho a cara mais alegre do mundo.
Só eu sei o quanto me dói a Alma………….
Aqui estou, sempre sozinha, olhando para tudo e para todos, a pensar mas que raio estou a fazer aqui!!!!!!!!!!!………….
E é com esse sentimento que me deito e oiço- "Vamos dormir que o tempo de sono é curto!!!"
E claro, vamos dormir. Mesmo que passe a noite a "correr e correr e correr, sem saber de onde a para onde.
Acordo.
Em ZEN recolho os meus pertences…….. Em ZEN percorro o que falta para chegar…………. Finalmente de volta.
Finalmente de volta.
Acomodada ao acento, com a pressão a aumentar, deixo extravasar tudo o que sinto, tudo o que me dói.
E choro.
Mais uma vez ninguém dá por nada…….. aliás nada de mais seria de esperar………. quem liga a uma brisa???????? Mais uma vez a torrente de lágrimas me impede de olhar.
Não quero que ninguém veja,,, que me questionem.
E claro, mais uma vez tantos cuidados para quê?????????????
Ninguém nota!!!!!!!!!
Cheguei!!!!!!!!!!!
Acabou!!!!!!!!!!
E cheguei e o sabor de um café realmente "nosso", me faz acordar para a realidade.
Cheguei!!!!!!!
Felizmente acabou.
Tanto que desejei que acabasse depressa...
E acabou.
Acabou mesmo antes de começar.
Foi um "lapso no tempo".
Só quero esquecer...
01/10