terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Reflexão sobre o PRA

(sim, escrevi bem, é mesmo sobre o PRA)


Quando me propus a fazer o curso EFA para terminar o 12º ano de escolaridade, estava longe de saber em que moldes o mesmo era ministrado.
Tinha uma ideia, concebida sem qualquer conhecimento concreto, que seria um ano de escolaridade, onde iria frequentar diversas aulas, sobre diversos temas do nosso dia-a-dia e realmente, nesse aspecto, não estava muito longe da realidade.

Quanto ao resto, enganei-me redondamente.

A minha entrevista, com o director do curso, para a sua frequência, foi feita telefonicamente, onde, como é de calcular, a informação sobre o mesmo foi-me fornecida em traços muito gerais, muito vagos.
Assim, na terceira semana de aulas fui abordada, por dois professores, com o objectivo de reconsiderar a minha presença neste curso, com o pressuposto de que não precisava de o frequentar, que este curso está vocacionado para indivíduos com mais de 18 anos e que pouca ou nenhuma experiência profissional (leia-se de vida) tenham.
Que deveria, isso sim, fazer RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências), onde só teria que apresentar a minha biografia, focando as aprendizagens que adquiri ao longo da vida, e, desta forma, em três meses (ou menos) teria a certificação do 12º ano.

É verdade que, nestes moldes, o curso EFA não se adequa ao meu curriculum.
Trabalho desde os dezasseis anos de idade, tenho um percurso profissional que considero muito bom, nunca desperdicei uma oportunidade para aprender, fosse lendo, vendo programas de televisão sobre os mais variados assuntos, viajando ou, simplesmente, conversando com pessoas interessantes, que tanto tinham para ensinar e com quem tanto aprendi.

Mas como não faz parte da minha formação desistir de desafios, e trilhar atalhos em vez do caminho completo, não aceitei a sugestão, pois apesar de todos os assuntos, até então, abordados nas aulas serem do meu conhecimento, há sempre algo que se aprende (voltar à sala de aula nunca pode ser mau), ou que consolida e algo que se aprofunda.
O simples facto de ter de elaborar trabalhos sobre os mais variados assuntos, embora nem sempre interessantes, é uma forma de consolidar conhecimentos e de por o cérebro a trabalhar em questões que não fazem parte do trivial, das rotinas do dia-a-dia.
Só por isso já vale a pena.

Mas quando fui confrontada com o método de avaliação dos alunos, ia-me dando um colapso.
A nossa avaliação é feita pelo PRA (Portefólio Reflexivo de Aprendizagem).
Um nome muito pomposo para algo que nada vale.

Passo a explicar:

Fui sumariamente informada que se um aluno não tiver grandes resultados nas aprendizagens da sala de aula, e fizer um bom trabalho no PRA, tem com certeza as suas competências validadas e por outro lado, se um aluno tiver excelentes resultados nas aprendizagens da sala de aula e não fizer um bom trabalho no PRA, paciência, as suas competências não são validadas.
Ou seja, todos os trabalhos que fazemos nas diversas disciplinas (continuo a chamar-lhes assim, é o que faz ter 40 anos), as apresentações, as fichas (testes), a participação de cada um, nada valem no cômputo geral da avaliação e acreditem não são tão poucos quanto isso, já para não falar da complexidade dos assuntos a trabalhar.

O que no fim vai contar é o PRA que apresente.

Assim pergunto: então para quê um aluno, depois de um dia de trabalho, de segunda a sexta feira ter quatro horas de aulas (19:15 às 23:15), dedicar-se, dar o seu melhor, trabalhar com afinco, aprender (Sim, aprender. Deveria ser esse o objectivo deste curso.), se nada do que faz nas aulas conta para a nota?

Tentam justificar este método de avaliação com o argumento que os trabalhos apresentados podem não ser feitos pelos alunos, sim, até pode, se não se levar em conta os que são feitos in loco.
E o PRA?
Não é ele elaborado fora da sala de aula?
Quem garante que o mesmo, também, não é feito por outra pessoa que não o aluno?
E já agora, colocando-me no lugar do professor, deve ser extremamente frustrante ver o trabalho que desenvolve com o aluno não ter qualquer cotação. Não ser ele (como compete a qualquer professor) a reconhecer as competências dos seus formandos, para as mesmas serem reconhecidas por um texto elaborado pelo próprio aluno, onde escreve que aprendeu isto e aquilo, mesmo que nada tenha aprendido.

Deixemo-nos de ilusões.

Será que ainda não perceberam que basta alguém ter um “palminho de testa” e consegue fazer um PRA no mínimo razoável? Basta olhar para os tópicos das fichas apresentadas por cada professor, em cada disciplina, e escrever no PRA que aprendeu tudo aquilo.

É realmente Portugal no seu melhor: na incompetência.

Mais uma vez (e como em tantas outras situações no nosso País), o que é uma ideia brilhante, mesmo de louvar, dar formação a indivíduos, fazê-los pensar, instruir-se, tornarem-se cidadãos mais conscientes dos seus direitos, das suas responsabilidades, na prática não tem resultado nenhum.

Gastam-se recursos financeiros de todos nós, finge-se que há uma “elevação dos níveis de qualificações base da população adulta” (que nas estatísticas nacionais fica sempre bem), que “Aprender Compensa”. 

Feito noutros moldes, tudo isto seria verdade.
Deste modo, só quem tiver realmente gosto pela aprendizagem e vocação para tal, tirará algo mais do que um “carimbo” que certifica aquilo que não tem.
Deste modo, para quê o esforço, a dedicação, o tentar fazer melhor, aprender mais? Basta ter uma nota “suficiente” nos trabalhos que apresenta. O resto fica para o PRA.

Não é isto um incentivo ao mediano em vez do incentivo à excelência? 

Talvez seja por este facto que as Novas Oportunidades são tão criticadas (e se assim for, com razão) e a motivo pelo qual as pessoas, que fazem o percurso “normal” de escolaridade, se sentem injustiçadas.

Infelizmente em Portugal continuamos a assistir à cultura da mediocridade, do laxismo, do facilitismo.

E por muitas medidas que se tome, nos diversos governos, não é por decreto que se alteram as mentalidades.
Está em cada um de nós a força, a necessidade, o dever de remar contra a maré e tornar este País um orgulho para todos nós portugueses.

Dá trabalho, sim, dá, mas se cada um fizer uma pequena parte, todas juntas fazem a mudança.